sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A cobradora

    Hoje  à tarde atravessava a Paulista num busão linha Vila Gomes, depois de uma aula particular na Bela Vista. Eram perto de 5h da tarde, horário em que o trânsito na avenida já beirava o caótico-normal de todo dia, mas nem ligava, ainda recolhido dentro de mim mesmo pela serenidade que me tomou há alguns dias. O tempo, nesses dias, tem estado bravo comigo, haja vista não tenha lhe dado a importância à qual ele já se habituou.
    No onibus, à minha esquerda, uma mulher desorientada, provavelmente sem saber nada de São Paulo, pergunta à cobradora sobre como ir ao Conjunto Nacional. Nisso a camaradagem do paulistano (algo impensável para quem não conhece São Paulo e associa o morador da cidade ao extremo individualista), revelada na cobradora e em dois ou tres passageiros, informa à moça de como ela deve proceder para que chegue ao seu fim.
    Foi nesse ponto que a notei, a cobradora, personagem principal dessa pequena história. Era morena, penso que alta, com os olhos que pastoram uma infância adormecida, uma infância paulistana, talvez, nos anos 80, numa travessa da Santo Amaro, entre o frio e o bolinho de chuva. Era bonita a cobradora.
    Passando em frente ao MASP, a mulher havia notado várias cadeiras devidamente perfiladas no vão do museu, todo ele um marco arquitetonico da capital paulista. Ao passageiro sentado sozinho à minha frente,  disse que talvez haveria  um show essa noite. O passageiro garantiu que não, que na verdade ali  iria haver a exibiçao de um filme, às 7h30 da noite, é uma espécie de cinemao ao ar livre, em plena Avenida Paulista.
     Pude extrair entao o que naquele momento me pareceu belo: o olhar da cobradora para o cinema improvisado parecia suplicar um momentinho de folga, que fosse, para estar ali. Aquele olhar, eu o reconheci pelo meu,  escaneando as vitrines das lojas de brinquedos, nos anos 90, no centro de Fortaleza, a mao esquerda acompanhada, ou mesmo a vontade de continuar o banho de açude, ainda tá cedo, ainda tá longe de escurecer.
      À mulher, o de menos o filme, o roteiro, os atores, o de menos, desde que estivesse sentada em uma daquelas cadeiras a encarar aquela tela de prata. “7h30?”, perguntou ao passageiro, como a fazer contas a fim de saber se dava tempo, numa quase promíscua autoenganação. Sim, ela queria ir ao cinema.
     “Sim, 7h30. Tá tendo a Mostra de Cinema de São Paulo, duas semanas, mais de trezentos filmes, acaba hoje. Aí no MASP tem que pagar pra entrar, ainda por cima. Você mal ouve o filme e ainda paga.”  Nessa hora tive vontade de pedir a palavra e  dizer que não, tia, no MASP é de graça, a senhora pode ir, paga nada não, eu tenho o guia aqui se a senhora quiser ver, olha aqui. Aproveita e leva seu filho, pode ser que ele goste, vai ter um filme de faroeste, massa pra caramba. E dá pra ouvir bem sim! Eu já vi um filme aí, um filme muito bom, só com músicas dos Beatles.  Vai que a senhora vai gostar.
     Não, provavelmente ela não foi.  Ainda voltou a cabeça pra esquerda, o mesmo olhar de mim menino, a última visão do lugar a se dissolver no meio da avenida.   

Um comentário:

  1. Muito bom o texto!

    De uma sinceridade poética tocante, faz também uma importante crítica social. Parece-me que você não falou nada à cobradora também para não aumentar sua vontade.

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